Katatonia - UOL Blog

O pior de não governar sua vida é de repente acordar. Sentir na pele o descontrole mesmo que se traduza em inércia. Sentar na beira do meio-fio e saber que mesmo dali, você pode escorregar e ainda fraturar o cóccix. Já sentiu o bafo quente que um bueiro exala quando anoitece? Cair na real. Seus olhos podem alucinar as luzes da cidade mas seus outros sentidos lembram que você pertence a tudo mais que te rodeia e em vez da glória dos neons marca a presença com desconforto e flatulência. Os bueiros peidam a cidade que a cidade não quis. Quando você cai em si pode estar no ponto do ônibus ou na sua rua, mas é o cheiro do bueiro que você vai sentir. Você foi traído. Não tem mais emprego. O cachorro morreu. Sua vida parece um blues e o coisa ruim toca sua harmonica likes the devil, babe! Você poderia colocar veneno na própria bebida, mas em vez disso embebe na sua pena nele. Aguardente dissolvida na tinta. Tinta borrando as mãos. A incerteza de saber se é o flato dos bueiros que te provoca ou se os dois são parte de um mesma cidade.
Tenho aguardente dissolvida na minha tinta e a pena arranha a página como um chicote nas costas.
Vamos acordar.

quanto tempo faz minha vida virou um caos?
quanto tempo faz essa cidade não pára e tudo é normal?
quanto tempo faz estou imerso numa matéria humana que sufocada, me sufoca junto?
quanto tempo desde a última vez que me vi?
quanto tempo se passou que dormi?
quanto tempo levou a memória para esquecer a porrada na nuca, o cassetete nas pernas e a humilhação de ser cidadã?
quanto tempo nesta cidade vou morrer?
quanto tempo levou minha vida para se parecer com a de muitos que como eu não se reconhecem mais no espelho?
quanto tempo vou deixar de ser viva?
quanto tempo vou de ônibus, trem, metrô ou barca sem destino com o mesmo caminho e com o mesmo retorno para o mesmo o mesmo o mesmo o mesmo omesmomesmomesmomesmomesmomesmomesmomesmomesmomesmomesmomesmo mesmomesmomesmomesmomesmomesmomesmomesmo

quanto tempo mais do mesmo?

WAKE UP!

Segunda-feira. Ah..... Entra pelas narinas o cheiro da manhã, as marcas do campo urbano, fuligem, monóxido de carbono e poeira. Claro, a selva de desodorantes dentro dos ônibus e sim, o inigualável cheiro da pólvora dos cartuchos de fuzil utilizados na noite anterior. A vida na cidade é incomparável.
E entra pelo bolso de muitos brasileiros um pagamento irrisório de um mês de alma vendida ao diabo. Praticamente somos romanos, o que recebemos equivale a um punhado de sal. Por isso salarium. Na época dos romanos, o sal, por suas propriedades para o corpo humano tinha para um legionário um valor tão alto como a água que ele consumia. Hoje em dia o valor do sal foi reajustado, da água também. Mas a quantidade em que recebemos ainda é o punhado. Não muda a mão que faz a colheita. Não muda a mão moendo o café. Não muda a mão que vira o centeio. Não muda a mão transformando a farinha. Sai sempre quente o pão mas não comemos a primeira fornada. É sempre quente o pão mas no chão restam-nos as migalhas. Sempre renova-se o feitor mas ,velha, ergue-se a mesma muralha.
A moenda gira, nós dentro.




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