.:.Ouvi sobre o Novo Mundo... É! Um novo mundo, totalmente diferente, cheio de espaço, sem oxigênio, com vida inteligente, vida que pensa pra você, dando assistência, assistência técnica, com garantia de duração.
Ouvi sobre ele... Na Internet, num comercial, tudo diferente, com pessoas, pessoas que não têm cabeça, não precisam delas, só de pernas, braços, e dinheiro... Pensar? Não é necessário, já existe um serviço que o faz para você, não se preocupe...
Senti o Novo Mundo... Tremor no meu chão, dizem que é ele chegando, um barulho precedido de ansiedade, novidade, moderno, um novo início, tudo diferente; indústrias de alimentos artificiais traficam informações genéticas, criação de clones, pessoas não nascem, crescem, estudam, nem são educadas; agora só se vêem pessoas sendo compradas...Pré-fabricação, natureza dos homens...
Acredito nele, tudo bonito, cinza com cheiro de dióxido de carbono, cheiro do novo mundo, último nome em tecno-porcaria, desenvolvida matéria prima, antinatural...
Lindo, perfeito, finalmente chegou! Que ¿paraíso¿, harmônico, barulhento, determinado, planejado...Não apresenta defeitos, nem imperfeições, infelizmente alguns não resistiram às mudanças, tentavam mudar tudo, desorganizar a ¿perfeição¿, se iludindo a saber o que é ser livre.
O Novo Mundo é ser livre, no comercial da tv disse isso......
E eu acreditei...
Oh, admirável Mundo Novo!.:.
E enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer? A verdade é sempre um contato interior e inexplicável. E por mais que eu busque palavras para definí-la, nunca a encontrarei.
Falo o que
fala o ar
a vida paira
o espelho fala
vida e luz
travessia
a fala
do vento
do corpo
no tempo da fala
eu mesmo no outro
nasci para contemplar.
O Cobrador de Corações
Estou no fim, e nem sei realmente se isto aconteceu da forma que irei registrar. Estando ao fim preciso pôr isto para fora porquê não mais importa que fique anônimo. Todos os envolvidos já se foram. Então que se foda, ao menos meus netos poderão ler e talvez entender o que eu não pude.
Thiago e eu éramos amigos de infância, do primário até a vida dita adulta, separávamos por vezes, mas a amizade sempre estava presente e então dávamos um jeito de papear, nem que fosse na ida ou na volta do trabalho. ?O artista vive no espelho? então de certa forma um era a credencial humana do outro, conhecidos há tanto tempo, julgamentos e desavenças simplesmente não existiam.
Ambos filhos de lares católicos, fomos crescendo naquele amálgama - respeite a deus-passe de ano-seja doutor-seja rico-dê-nos netos - e desde cedo rejeitávamos a isto, de início de modo pouco articulado e meio babaca, mas depois de tanto tentar saciar a sede pela alternativa à aquilo, começamos, cada um na sua trajetória, a curtir nos nos livros, professores e pricipalmente na música dos anos 70 e na emergente onda do que ficou conhecido como Heavy Metal . A tosca música punk não batia bem nos tímpanos e a inata ânsia pelo irreal, pelo abstrato, casou-se perfeitamente com o que vociferavam bandas como Black Sabbath, Iron Maiden e Judas Priest. O que aquelas mentes lisérgicas e pertubadas produziam encontrava berço, a um oceano de distância, em um subúrbio brasileiro. Filhos de demônios, seres mitológicos, hinos de independência e insurreição cívica, regado a música bem feita, barulhenta e por vezes difícil para as nossas mentes puerís, isto foi a argamassa que nos fez aprender e aprender sempre. Ao fim de 10 anos e depois de muitos amigos e parentes mortos e mudanças políticas e econômicas, emprego/desemprego dinheiro e agrúras e alguns amores e loucuras, vencemos a barreira do chamado mundo adulto, mas a inquietude parecia dormir, e quando acordava maior, mais aguda e mortífera tanto que por vezes tudo se desencaminhava, desordenava e lá estávamos nós, a conversar e fuçar respostas uns nos outros até que a saciedade vinha e podíamos dar de cara com o asfalto novamente. Ambos nos tornamos artistas por profissão. O que ajudava por um lado, mas apenas por um lado.
Foi depois de quase mais uma década naturalmente separados, e apenas cientes da vida de um e de outro através de emails e mais emails e troca de trabalhos daqui e dali que, por um inforúnio daqueles que te tornam um ser primitivo com todos os instintos à flor da pele, que nos reencontramos. Um amigo em comum, sem família no estado foi dado como desaparecido e lá estávamos nós com uma prima do sujeito a procurá-lo no IML, como passo inicial da investigação policial. Sabíamos bem do envolvimento da criatura com traficantes e não seria nada difícil encontrá-lo todo fodido em uma daquelas gavetas. Situação pra lá de horrível, mas vivendo aqui acaba-se por se acostumar.
Thiago chegou atrasado pra caralho como de costume. Nos abraçamos como irmãos, como de costume, e pra variar o miserável chegou queixando-se de um término com a sua mais que centésima tentativa de se acertar com as coisas do sexo oposto. "Um dia chego lá" dizia ele com a sua inabalável fé mas com um cansaço que já não se escondia atrás das boas roupas e maneirismos refinados. Desta vez ele estava ainda mais cansado do que da última vez que nos encontramos e chegou a comentar, entre o papo pra lá de bom que ele sempre tinha, que queria muito me encontrar para conversar, pois precisava de bons conselhos.
Voltando ao necrotério. Estávamos lá, eu, Thiago e a prima do amigo desaparecido e o responsável pelo turno diurno a nos acompanhar e começar a abrir as gavetas. Uma a uma e nada do André ou o que fosse. Eu sempre tive estômago para essas coisas e estava tudo bem, até a antepenúltima gaveta, quando surgiu uma mulher, simples e bonita, de imagem indefectível, inclusive chamou a atenção de todos justamente porquê parecia dormir um sono daqueles, ao invés de morta. Na minha absurda atenção para coisas idiotas, já ia comentar que achava o tom de pele daquele cadáver algo extraordinário, começando a decompô-la em cores e desenho, quando olhei para Thiago e tomei um susto, ele estava ficando lívido e a julgar pela reação dele, certamente ele conhecia a defunta. – Chegou de manhã, ninguém sabe exatamente do que morreu, dizem que foi falência geral dos órgão vitais – CARALHO! Gritou meu amigo – Ninguém tem de morrer desta forma, que merda. Caralho, que merda. – Você a conhece? Digo, conheceu? Um "sim" entre dentes surgiu, e como não achamos o que fomos procurar, saímos dalí para a minha casa. Estava preocupada com ele. Ah, o André? Apareceu três dias depois, havia sumido mesmo e ninguém sabe porquê, mas apareceu vivo, o desgraçado.
Chegamos em casa. Apesar de muito sutilmente tentar algo, Thiago não se propôs a falar nada sobre o acontecido, ao invés disto começou a ser engraçado, como só ele, e a relembrar feitos idos e a se comportar de modo melancólico. Fiquei ainda mais preocupada, pois eu sabia que aquilo era o prelúdio de uma depressão. Ele sempre fazia isso. Mas procurei não me preocupar tanto, o cara sempre fora mais que sensato, e não seria desta vez que ele faria alguma merda. "Adulto vacinado" eu pensava "daqui a uns dias tudo volta ao normal, ele vai me ligar e desabafar e fica tudo bem, vai ver a mulher havia sido um caso, que azar miserável". Ele foi embora, rindo como sempre, e agradecendo-me, como sempre, e ficamos de combinar uma degustação de bebidas "just like the old times huh?" e a voz do miserável está em meus tímpanos desde então. Grave, límpida e brilhante, como sempre. (Continua ==>)
(==>) Passou-se uma semana e nada dele me ligar. Resolvi ligar e quem atendeu foi um de seus irmãos, completamente irado comigo e transtornado não disse nada e o que pude entender é que alguma coisa ruim havia acontecido a Thiago. A minha maldita intuição estava certa. Começava a dor em minha alma e o estorvo de minha vida, e graças aos céus estou morrendo, pois vou livrar a mim e aos meus desta culpa inerte e perversa a qual tentei me livrar com todas as forças. Intuição ignorada e agora a vida estava me privando de meu maior amigo.
Peguei o carro e corri em direção a sua casa, que ficava a quarenta minutos da minha. Quarenta longos minutos. Cheguei lá e estava toda a família dele, todos me olhando de modo estranho, e ele estava lá, acamado com o rosto vidrado e com médicos em volta.
Cheguei ao médico após driblar muita gente – culpa sua – eu sabia que um dia chegaria a isto – o que você veio fazer aqui? – eles fumavam maconha escondido – ele se tornou alcóolatra por causa dessa aí ó!. Tudo mentira. O filho-da-puta era saudável pra caralho, e se bebemos e tomamos porre e essas coisas, foi a muito tempo. Gente escrota.
– Doutor, o que ele tem? É Grave?
O médico me disse e eu até hoje custo a acreditar. Sem nenhum motivo aparente Thiago havia entrado em um estado profundo de catatonia. Com a perda do contato, a família chamou a polícia e arrombaram o apartamento dele, encontraram-no largado no sofá, sem banho e sem comer por dias e ainda balbuciava algumas palavras e nomes, mas, com a chegada de mais pessoas ele começou a gritar e de repente ficou com os olhos vidrados e neste estado. Levaram-no dali para morrer um mês depois na Clínica São José, sem jamais ter recobrado a consciência.
Inconformada e em fúria, um dia fui e arrombei o apartamento dele, antes que a família viesse e acabasse com o que restava da memória dele, e da minha própria. Juntei o que pude e na saída ainda dei de cara com a irmã mais velha dele a quem esmurrei com toda a vontade. Respondi e perdi ambos os processos.
Depois de ficar dias a fio vasculhando e tentando saber de alguma coisa, perdi meu emprego e encontrei uma foto da tal mulher morta que vimos no IML. Elisabeth o nome dela. Os dois estavam abraçados e como ele mesmo tirara a foto, não dava pra ver onde era, e atrás havia a inscrição a caneta, borrada por uísque, indecifrável.
Pelo que pude concluir, junto com o resultado da autópsia que dizia que ele estava completamente alcoolizado e havia tomado uma variedade insana de comprimidos e outras subtâncias não convencionais, era que havia cometido suicídio, e por puro azar, não tão rápido. Terrivelmente simples. Meu amigo não agüentou a morte daquela mulher.
Achei também um CD gravado inteiramente com uma única faixa, ainda dentro do aparelho de som, e pela data da gravação foi feita ainda na noite do dia do incidente. Verifiquei em seu ex-emprego e descobri que ele havia faltado a semana toda com a desculpa de ausência por motivo de morte de ente "querido".
Miserável, foi embora. Viu Elisabeth morta e realizou o seu próprio fim, morreu de desgosto. Eu acabei com a minha própria vida neste processo. Ninguém suportou meu miserável amargor, minha saudade. Ao menos fui compreendida e apesar das separações e falências, segui em frente e me recompus um bocado, mas sempre com aquela maldita última música e todas as lembranças me acompanhando. Me tornei um fantasma na esperança de reencontrar meu amigo morto e agora chega.
Despeço-me de todos, levarei lembranças a Thiago e Elisabeth.
Com amor, sempre,
Luci.
***
"To see the actor without tears
Dark rivers carve the years between the lines of self control
In my psychotic karmic fear, I own your tears anyway
And I am you and we are not afraid"
The Heart Collector – Jeff Loomis & Warrel Dane
"Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.
(...)
Passei pela minha vida,
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...
(...)
Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projeto:
Se me olho a um espelho, erro-
Não me acho no que projeto.
Regresso dentro de mim
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha dentro de mim."
Gosto de ficar sozinha, e daí?
Vejo, freqüentemente,(...) pessoas incapazes de caminhar sozinhas, vão aos pares, aos bandos. E vão falando, falando, sem ver o mundo maravilhoso que as cerca. Falam porque não suportariam caminhar sozinhas. E, por isso mesmo, perdem a maior alegria das caminhadas, que é a alegria de estar em comunhão com a natureza. Elas não vêem as árvores, nem as flores, nem as nuvens e nem sentem o vento. Que troca infeliz! Trocam as vozes do silêncio pelo falatório vulgar. Se estivessem a sós com a natureza, em silêncio, sua solidão tornaria possível que elas ouvissem o que a natureza tem a dizer. O estar juntos não quer dizer comunhão. O estar juntos, talvez, é uma forma de solidão, um artifício para evitar o contato conosco mesmos.
É, a verdade é que a gente carrega mágoas e decepções desde o começo da vida, desde quando éramos muito pequeninos. Dizem que crianças não têm problemas, mas é mentira.
(-Lembramo-nos com saudade hipócrita, dos felizes tempos; como se a mesma incerteza de hoje, sob outro aspecto, não nos houvesse perseguido outrora e não viesse de muito longe a enfiada de decepções que nos ultrajam.
Eufemismo, os felizes tempos, eufemismo apenas, igual aos outros que nos alimentam a saudade dos dias que correram como melhores. Bem considerando, a atualidade é a mesma em todas as datas.-)