Apenas uma vez a luz e a escuridão se misturaram em um delírio. Muito embora não me recorde de todos os pormenores dos meus delírios, desse episódio nada escapa. Por alguma razão dessa vez a memória não me traiu.
Estava no centro da pequena cidade onde morava quando uma forte sensação tomou conta de mim. Pensei que minha espinha fosse se partir, tal a tensão que me dominava. Ao mesmo tempo era como se eu estivesse sendo alçado aos céus. Vindo de toda parte e de parte alguma, o concerto para violino e orquestra de Mendelssohn soava num estrondo só. A música vibrava dentro da minha cabeça, em todas as minhas células. O sentimento de angústia é indescritível. Eu sentia uma coisa bela e ao mesmo tempo tão terrível e desesperada, que era como se a morte fosse decepar-me a cabeça. Não havia para onde escapar ou a quem recorrer. Algo consciente dentro de mim me fez correr até a casa de uma amiga, professora universitária que dividia a casa com uma empregada e um gato amarelo; não me lembro de ter cruzado a rua, de ver pessoas ou carros, tudo o que existia era a música- poderosa, magnífica e satânica, querendo me pegar. O Opus 68 de Mendelssohn e seus torturantes acordes.
Acho que minha amiga estava no jardim, não sei. Lembro que adentrei sua casa e avancei direto para o aparelho de som. Sim, ela tinha um disco com o concerto, havia me emprestado meses antes. Pus o disco. Àquela altura eu soluçava alto, gania, tremia e suava dos pés à cabeça, numa tristeza e ao mesmo tempo num fervor religioso avassalador que só terminou após horas de audição do meu concerto mental e físico.
Houve um ponto em que pude distinguir claramente os dois sons, o real e o imaginado. O imaginado era anos-luz mais belo e vivo. Também senti que, se demorasse muito naquele estado, nunca mais voltaria à realidade. Foi um daqueles momentos-chaves da vida, em que um simples gesto ou pensamento pode mudar tudo. Algo em mim se agarrou ao concerto real, à música tosca que vinha do aparelho de som. Meu choro, clarão e desespero chegaram ao fim. Foi a única vez que chorei em um delírio.
Minha amiga não disse palavra, apenas segurou a xícara com chá e esperou. Após um tempo, tudo o que pude dizer foi: "A música, entende?". Ela balançou a cabeça afirmativamente. Eu realmente precisava daquela compreensão, mesmo que não fosse sincera. E precisaria desesperadamente, não só naquele momento, mas por toda a vida afora.
Eu pintei um desenho seu
Sua alma era vermelha e sua mente azul
O destino negou a luz na minha criação
Esse sonho que eu tinha fez da minha paixão uma escrava
A realidade estava sempre longe demais
E nós éramos felizes até um dia isso chegar muito perto
De repente eu me deparei com a verdade do meu sonho
Meu amor tinha sido apenas uma imagem, uma cena
Eu suponho que eu precisava acreditar
Não queria ver que você nunca esteve perto de mim
Mas eu lamento
Essa ilusão te causou muita dor
E eu não tenho uma solução
Tentarei nunca retornar novamente
Eu pintei uma figura sua
Meu sonho era uma mentira e a mentira se tornou realidade
A verdade veio a tona
É decepcionante o que os sonhos podem fazer
Mas eu lamento
Essa ilusão te causou muita dor
Eu não tenho uma solução...
Apenas lamento
(((Please be the eyes
That guides me through
Please be the hands to lead me
In search for the shocking truth
Please be my courage
My will to win
Please understand and listen
PLEASE BE MY FRIEND.)))
:::Todos nós estamos procurando por braços abertos
Bem, é uma pena como eu mesma me separo.
Quando são as mesmas palavras que me fazer correr para me cobrir nos Seus braços:::
É o medo que esteriliza nossos abraços e cancela nossos afetos; que proíbe nossos beijos e nos coloca sempre do lado de cá do muro. Esse medo que se enraíza no coração do homem impede-o de ver o mundo que se descortina para além do muro, como se o novo fosse sempre uma cilada, e o desconhecido tivesse sempre uma armadilha a ameaçar nossa ilusão de segurança e certeza.
O medo é o grande gigante da alma, é a mais forte e a mais atávica das nossas emoções. Somos educados para o medo, para o não-ousar e, no entanto, os grandes saltos que demos, no tempo e no espaço, na ciência e na arte, na vida e no amor, foram transgressões, e somente a coragem lúcida pode trazer o novo, e a paisagem vasta que se descortina além dos muros que erguemos dentro e fora de nós mesmos.
E se Galileu Galilei tivesse se acovardado, diante das evidências que hoje aceitamos naturalmente? E se Freud tivesse se acovardado diante das profundezas do inconsciente? E se Picasso não tivesse se atrevido a distorcer as formas e a olhar como quem tivesse mil olhos?
Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.
Raiva, mágoas. E eu tenho vontade de enfiar uma faca no peito de cada um, sentir o sangue quente escorrendo pela palma da minha mão ainda pulsando.
Vontade de sair nua pelas ruas desertas da cidade na calada da noite, ao som da sombria escuridão dos teus passos, gritando coisas que só Ele entenderia.
Vontade de partir, sem lágrimas nem lembranças. Vontade de inverter os dias, agir sem ter que pensar nem ter razão. Inconseqüente e irresponsável, sempre.
Tenho vontade de olhar na cara de alguém e falar FODA-SE, sem parecer grosso nem insulto. Porra, pq algumas coisas são impossíveis?
Vontades, vontades e mais vontades.
Pq eu tenho vontades tão insanas que nenhum humano entenderia.
O dia tão louco
Pessoas erradas
As horas passavam
Tudo acontecia de um jeito
Inevitável.
O sentido e a razão estão longe para alguém
O que é que o mundo tem te dado
Todo esse tempo? Um coração quebrado,
Olhos ardendo que gritam cansados:
Acabem logo com fumaça arisca,
Pó hilariante, que engana e mata
Salve teus pulmões, salve o teu corpo,
Salve tua alma, salve muito mais,
Salve tua vida, alimenta teu interior.
Muitos são chamados poucos escolhidos
Gritam sua chance de se libertar
Das coisas velhas que nunca te deram paz
E ela não entendia o porquê de tudo aquilo. Não entendia como as pessoas se afastavam, do mesmo modo que surgiam. Não entendia como as pessoas podiam ser tão falsas e nojentas daquele jeito. Sentia-se cansada do mundo, da vida. Tava cansada de tanto andar e nunca encontrar um lugar certo. Cansada de tanto ajudar e só receber desprezo e descaso. CANSADA E SOZINHA. Sentia-se deslocada, nada servia pra ela. Triste, aborrecida, desiludida, sem amigos. Tá certo, sabia que havia pessoas que a consideravam, porém essas mesmas pessoas sempre a deixavam sozinha.
Queria dormir um sono morno na cama aconchegante, mas o sono havia lhe deixado.
Sentia vontade de gritar, chorar. Até as malditas lágrimas a tinham abandonado também. Chorar é bom, lava a alma. Mas esse bem lhe foi roubado.